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3 de fevereiro de 2018

Calema: “Há dez anos estávamos numa garagem a ver aviões a passar” [Entrevista]

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Chamam-se Calema — expressão que significa especial ondulação na costa africana — e vieram agitar a música em Portugal. Os irmãos Fradique e António Mendes Ferreira, de 30 e 25 anos, instalaram-se no País há alguns anos, vindos de São Tomé e Príncipe.
Pelo meio, estiveram em França, onde começaram uma carreira profissional como cantores e arrancaram com o fenómeno de sucesso global que se está a tornar a sua música.

Esta dupla que tem enchido discotecas e salas de espetáculo por todo o País — o single “A Nossa Vez”, do mais recente disco, “ANV”, soma mais de 37 milhões de visualizações no YouTube.

O novo tema, “Casa de Madeira”, ganhou um videoclip a 25 de janeiro que foi gravado na Islândia. O duo está em digressão e a grande data no horizonte é a 13 de abril, quando tocam no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Começaram a cantar juntos em casa, muito cedo?
António — Desde muito cedo, por influência de várias duplas brasileiras e também por causa dos nossos pais, que viram essa luz musical que se acendia em nós quando éramos pequenos e perguntaram-nos porque é que não juntávamos as vozes e formávamos uma dupla.
Fradique — Naquela altura, quando não havia luz em casa, passávamos a noite à luz das velas e pegávamos na guitarra, cantávamos a noite toda. É uma imagem muito forte e isso marcou. Mas não víamos a música como algo grande, víamos como um passatempo.

E quando é que passaram a levá-la mais a sério?
F — Foi quando saímos de São Tomé.

Primeiro vieram para Portugal, certo?
F — Viemos para estudar, e eu fui para Évora, fiquei uns três anos no Alentejo.
A — Eu fiquei em Lisboa.
F — E assim que tínhamos um tempinho dávamos um salto [para ter um com o outro], falávamos na Internet. Os nossos objetivos, naquela altura, além da música, era fazermos uma formação que tivesse algo relacionado com a música. O António fez vídeo, eu fiz multimédia. Começámos a gravar covers na Internet: “nós aqui não somos conhecidos, temos que arranjar uma estratégia, uma forma de as pessoas lá fora nos conhecerem mais rapidamente”. E depois de terminarmos os estudos, fomos em 2011 para França. Foi lá que podemos dizer que começámos a tocar mesmo ao vivo os dois.

Mas tinham alguma coisa planeada, quando foram para França?
A — Primeiro tinha ido o nosso pai, nós andamos sempre juntos. E quando fomos para França nem sabíamos falar francês. Ou seja, era um país novo. Tínhamos que aprender tudo de novo, começar do zero. Aprendemos muita coisa, mesmo a arte de estar em palco. Tivemos a oportunidade de fazer imensos salões de chocolate.

Salões de chocolate?
A — Sim, foi algo que aconteceu por acaso. Nós tínhamos chegado a França há uma semana, e depois alguém nos liga e diz: “São Tomé e Príncipe está a expor o chocolate no salão internacional em Paris”.
F — Comprámos o bilhete, fui à procura do stand. E quando cheguei lá perguntei: “Quem é que fala português aqui?” E foi mesmo um alívio. Quando chegámos à Europa e nos deparámos com prédios enormes, multidões, foi um choque. Lá estamos mais habituados a ver floresta, árvores.

E como é que começaram a tocar nesses salões de chocolate?
A — Estava lá o cônsul no stand, deu-nos a oportunidade de tocarmos ao lado. E depois começaram a agrupar-se pessoas, porque havia um palco onde os países iam apresentar a sua música, e havia um intervalo — porque não estávamos na programação. Mas ele falou com o apresentador e viu que havia um intervalo de 15 minutos e conseguimos entrar e tocar as músicas. Gostaram tanto que até nos pediram para fazermos todos os salões: em França, na Suíça…
F — Foi nessa digressão que aprendemos a falar francês. Tocávamos mais ou menos duas ou três vezes por dia e encontrávamos sempre pessoas diferentes. Então tínhamos que convencer todos os dias um público diferente. Depois, por teimosia nossa, participamos no “The Voice França”. Passámos os primeiros castings, fomos até às provas cegas, conseguimos pelo menos despertar o público lá presente — o júri não virou [a cadeira]. E depois participámos em várias coisas, lançámos o segundo álbum. Viemos para Portugal, pensámos “é lá que está o nosso público, vamos trabalhar, fazer as coisas.” O álbum “ANV” é um resumo desse percurso todo. O nosso lema é “cada passo, uma conquista, e, a cada degrau, uma nova vista”.
A — O Coliseu vai ser um momento marcante, porque há dez anos estávamos numa garagem a ver aviões a passar, estávamos no mato. E agora temos a oportunidade de fazer uma das salas mais emblemáticas cá em Portugal.

Como é que Santo Tomé e Príncipe vos vê?
F — Como os príncipes [risos].
A — Embaixadores [risos]. O que tentamos dizer às pessoas com a nossa mensagem é que qualquer um, independentemente de onde venha, com a cabeça firme para um objetivo, com muita luta e sacrifício, consegue chegar até onde quiser. E nós somos uma prova disso. Quebrámos um mito que existia há muito tempo no nosso país e em África, e não só: que, além das dificuldades, tu consegues chegar até onde quiseres se lutares.

O facto de serem irmãos tornou tudo mais fácil ao longo do caminho?

F — Torna mais fácil porque há essa cumplicidade e intimidade. E ajudou bastante porque os nossos objetivos desde miúdos sempre foram comuns. E esperamos continuar sempre com este sorriso no palco e que a língua portuguesa possa chegar a mais pessoas e um dia concorrer para um prémio internacional, como um Grammy.

Qual foi o melhor concerto, neste percurso todo?
F — Cada um deles é único. Mas tem um que me marcou bastante: foi a primeira vez que tocámos em Angola, no Estádio dos Coqueiros. Havia lá mais ou menos 35 mil pessoas.
A — Aquilo foi um estrondo. As pessoas começaram a cantar tão alto que já não conseguíamos ouvir o som que saía das colunas.

Deixando Angola, e partindo para a Islândia, como é que decidiram gravar lá o novo videoclip?

A — Nós quando escutamos a música é como se estivéssemos a viajar psiquicamente para um outro mundo. E o sítio ideal para se gravar [o videoclip] era um sítio frio, amplo, grande, gigantesco, estranho.
F — Parecia o espaço. E nós também tínhamos visto alguns filmes e vídeos gravados ali. Como o “Interstellar”. Já gravaram “O Senhor dos Anéis”, o “Esquecido”, há muitos filmes de Hollywood que foram gravados ali. 

O que é que gostam mais de fazer num dia de folga?
F — Videojogos, dormir, escutar música, escrever. Adoramos pescar. Nós fomos pescar em Portugal e só há pouco tempo é que soubemos que temos de tirar uma licença [risos]. Bem, se nos apanharem aqui em cima da pedra a pescar…
A — Em São Tomé estamos habituados a chegar e a atirar o fio para a água. Hoje em dia estão a criar regulamentos para tudo e para todos [risos].

E são bons a pescar?
A — Sim, apanhámos várias vezes. Mais de 50 cavalas, com cana de pesca, muito fixe.
F — Gostamos sempre de desportos radicais também. Pesca submarina, caça, aventuras no mato… a falta de tempo faz com que não consigamos ter muito tempo, mas assim que a gente pode, vamos.
No final, quisemos testar se estes irmãos que passam a vida juntos sabem assim tanto sobre o outro. Fizemos perguntas sobre um irmão e o outro teve de adivinhar a resposta certa. Depois de escreverem as suas respostas nos blocos de papel, mostravam um ao outro para ver se tinham acertado.

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Editado por: Marcos Sérgio